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Leituras da Semana | Teoria da História (13 a 15/04)

Olá gents,

Eis as leituras da semana. O resumo do texto do Mudimbe deve ser entregue no dia da leitura do texto.

**Lembrando ao pessoal da Turma C, noturno, que estamos atrasados em relação ao calendário.

13/06 24. V.Y. Mudimbe, “Discurso de poder e o conhecimento da alteridade”, in A invenção de África. Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento, Edições Pedago, Mangualde, 2013, pp. 15-42.

15/06 25. Walter Mignolo, “Os Estudos Subalternos são pós-modernos ou pós-coloniais. As políticas e sensibilidades dos lugares geoistóricos”, in Histórias locais/projetos globais, UFMG, Belo Horizonte, 2003, pp. 239-294.

Apontamentos sobre o texto de Walter Mignolo

Olá pessoal,

Disponibilizo abaixo alguns apontamentos sobre o texto de Walter Mignolo que lemos na última aula. Espero que ajude a esclarecer um pouco mais as questões de que trata o autor.

Você também pode baixá-lo clicando aqui.

Apontamentos sobre o texto de Walter Mignolo “A gnose, e o imaginário do sistema mundial colonial/moderno” in Mignolo, Walter. História locais/projetos globais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002, pp. 23-77.

Walter Mignolo é um teórico da literatura argentino que construiu sua carreira entre França e EUA. Suas pesquisas giram em torno da semiótica, literatura latino-americana, sistemas de escrita pré-colombianos e epistemologia. Em The dark of Renaissance (1992), um dos seus livros mais conhecidos, o autor investiga as práticas de subalternização do conhecimento das civilizações americanas ao longo dos século 16 a 18. Ele discute os mecanismos utilizados pelos filósofos e gramáticos europeus para hierarquizar os saberes locais a partir de suas próprias concepções (concepções europeias) de conhecimento e de escrita. Muitas das formas locais de escrita, como quipus das sociedades andinas, ou mesmo os códices meso-americanos, com seus sistemas hieroglíficos (que já continham elementos fonéticos), foram rebaixados pela filosofia europeia, e não reconhecidos como linguagem escrita.

O resultado disso foi a destruição de um sofisticado conjunto de saberes desenvolvidos pelas populações locais, conhecimentos construídos ao longo de, e a partir de sua experiência histórica. Essa espécie de violência epistemológica conduzida durante o Renascimento – tido como um momento luminoso e de progresso na narrativa da história europeia – coincide com a destruição das sociedades americanas, a conquista colonial e a construção do sistema escravista. Tudo isso, para Mignolo, perturbaria a versão triunfante da história da Europa na modernidade, e constituiria propriamente o lado obscuro da Renascença.

O livro do qual lemos o capítulo de introdução (“História locais/projetos globais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar”. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002, pp. 23-77.) desenvolve questões já colocadas em obras anteriores. No entanto, ele passa a agregar uma série de debates, de diferentes tradições de pensamento e perspectivas teóricas postas em circulação por gerações intelectuais de autores que pensam nas margens do sistema-mundo (falaremos sobre o conceito de “sistema-mundo” mais adiante).

O livro tem um caráter claramente exploratório e propositivo, e pode ser lido como uma tentativa de produzir um vocabulário crítico ao eurocentrismo a partir de uma perspectiva latino-americana, um vocabulário renovado trazendo para o centro do debate a discussão sobre o processo de construção do que ele chama de “imaginário do sistema-mundo colonial/moderno.” Esse empreendimento tornou-se possível, a meu ver, pelas condições criadas por diferentes tradições críticas que emergiram especialmente no pós-guerra. E para entender o vocabulário usado em seu livro é preciso ter em mente a formulação de uma série de perspectivas teóricas, das quais eu destacaria sete:

  1. Crítica anti-colonial (Samir Amin)
  2. Teoria da dependência (Andre Gunder Frank)
  3. Teoria do sistema-mundo (I. Wallerstein, que leremos na sequência do curso)
  4. Teoria da colonialidade do poder (Aníbal Quijano)
  5. Teoria/ética da libertação (Enrique Dussel – não confundir com “teologia da libertação”)
  6. Teoria pós-colonial (Estudos subalternos)
  7. Pós-modernismo, analítica do poder e desconstrução (Foucault, Derrida etc.)

Embora Mignolo tenha muitos reservas em relação ao pós-modernismo, visto por ele como não mais que uma crítica eurocêntrica ao eurocentrismo (à razão ocidental), é preciso reconhecer que muitas das perspectivas críticas mobilizadas por ele no texto se beneficiaram imensamente do espaço aberto para novas teorias a partir da bem sucedido projeto pós-moderno de crítica das grandes narrativas e das filosofias da história.

Do mesmo modo, é preciso também destacar as contribuições do Panafricanismo e do Afrocentrismo, essenciais para a formulação de um discurso disruptivo anti-eurocêntrico, que há décadas já perturbava as mitologias da assim chamada “razão ocidental”.

Mas o que significa “eurocentrismo” na teoria proposta por Mignolo? Primeiro, é importante não confundir eurocentrismo com Europa. O eurocenrismo é uma ideologia que coloca não toda a Europa, mas apenas alguns de seus povos e nações, como os únicos agentes ou centro da história. O eurocentrismo excluiu – dependendo da narrativa – partes consideráveis da própria Europa, como a península ibérica ou mesmo a Europa Oriental e a Turquia.

Da mesma forma, também é preciso estar atento para não essencializar o eurocentrismo como um atributo ou uma visão de mundo inerente de todo aquele que nasce na Europa. Como toda ideologia (do racismo ao liberalismo) qualquer pessoa pode aderir ou rejeitar o eurocentrismo, independente de sua origem, nacionalidade, gênero etc.

Para exemplificar o tipo de eurocentrismo de que fala Mignolo, aquele que é capaz de moldar – ideologicamente – nosso imaginário, podemos citar o caso da própria divisão da história em estágios, eras ou idades.

É aceito, praticamente sem questionamento, que existe uma Idade Média. Mas o que significa Idade Média? Ele é média em relação a que? Segundo uma tradição europeia iniciada por Petrarca (1304-74) ela seria média em relação à Antiguidade e a sua própria época. Mais tarde, um certo Pierre Pithu (1539-76) falaria em uma “moyen age’”; e William Camden (1551-1625) falou em “middle time”. Por fim, Christopher Cellarius (1623-1707), em seu livro “História Universal dividida em Antiga, Medieval e Novo Período” consagrou o uso desses termos[1]. O pressuposto desse argumento é que entre a antiguidade e o presente havia um período intermediário em meio a duas épocas luminosas.

Mas será que essa mesma demarcação vale para as sociedades americanas? Vale para a África sub-sahariana? Ou para o mundo islâmico, a China e Índia? Provavelmente não. Em linhas gerais, aprendia-se no passado que a Idade Média, por exemplo, era caracterizada pelo feudalismo. Hoje sabemos que sequer existiu um único modelo de feudalismo, e talvez ele nem se aplique a toda a Europa.

Diversas teorias críticas ao eurocentrismo recuperadas por Mignolo tentaram reconstruir essa percepção. Segundo várias dessas teorias, a Europa era, nesse período, uma parte periférica do mundo. Enquanto o Oceano Índico, sob hegemonia chinesa e indiana, as duas regiões mais ricas do mundo até o século 18, concentravam o grosso do comércio mundial.

O Islã, por sua vez, conhecia seu período mais próspero, dominando a cultura helênica e o comércio entre ocidente e oriente por meio da Rota da Seda. Ou seja, a Europa estava longe de ser o centro da história, e a periodização dessa história como “Idade Média” não faria nenhum sentido para o mundo fora da Europa.

Um raciocínio semelhante poderia ser feito em relação à Antiguidade. Geralmente a antiguidade se restringe a Grécia e Roma, vistas como o centro do mundo, o berço da filosofia, da história, do teatro, da política. No entanto, essa noção de Antiguidade deixa de lado a Mesopotâmia, China, Índia, e até mesmo o Egito, provavelmente a mais influente civilização do Mediterrâneo, atraindo a atenção de gregos e romanos.

Esses são exemplos de como nosso imaginário foi modelado por uma ideologia que foi construída, ao longo dos séculos 18 e 19, período de consolidação da hegemonia europeia, e que conforma o modo como entendemos a história.

Na perspectiva proposta por Mignolo, é justamente esse modelo que precisa ser submetido a crítica. No entanto, e esse é um ponto importante que diferencia a perspectiva de Mignolo em relação aos discursos anticoloniais dos anos 60 e 70, ele não pretende negar ou rejeitar a herança cultural europeia. Pelo contrário, essa perspectiva busca se apropriar dela tentando relê-la fora ou além do modelo eurocêntrico. O que chamamos de mundo medieval europeu, para voltar ao exemplo que dei acima, permanece fascinante e fundamental para a compreensão da história; o interesse por ele se sustenta a despeito do fato de que a ideia de Idade Média tenha sido forjada a partir de uma perspectiva eurocêntrica.

O mesmo vale para a cultura greco-romana. Ela continua sendo de interesse fundamental, e talvez se torne ainda mais fascinante após passar por uma reinterpretação a partir da crítica ao eurocentrismo. Em tese, a partir daí poderemos compreendê-la no conjunto maior de trocas e contatos entre as culturas do Ocidente e Oriente, muito mais dinâmicas do que geralmente supomos quando nos contentamos com versão eurocêntrica da história da Grécia e Roma, contada na forma de um desenvolvimento autogerado e autocontido.

O esforço de submeter o eurocentrismo a crítica exige a construção e a mobilização de um vocabulário que nem sempre é tão familiar como é o vocabulário do próprio eurocentrismo com o qual estamos habituados. Um dos conceitos centrais de sua crítica é o de “diferença colonial”. Por “diferença colonial” Mignolo entende o choque de mundos, a irredutível dissonância entre percepção do tempo e do mundo que acontece quando diferentes culturas entram em contato no contexto da dominação colonial.

Enquanto para os colonizadores espanhóis, por exemplo, o ato de dominação parecia evidentemente legítimo por conta do poder que as autoridades seculares e eclesiásticas davam aos conquistadores, para os nativos, ao contrário, a dominação significava o destruição de grande parte do seu universo cultural de referência. Os incas se referiam a esse tempo como a Pachacutti, o mundo de ponta-cabeça, nas palavras de Felipe Guamán Poma de Ayala, um indígena peruano que viveu na passagem do século 16 para o 17 e autor de uma das principais obras escritas nas Américas sobre esse período. É essa irredutibilidade de percepções que devem ser levadas em consideração quando falamos em “diferença colonial”.

Essa irredutibilidade, contudo, acaba por afetar e transformar os dois lados em choque. De um lado, o mundo indígena foi profundamente afetado pelo cristianismo e as novas formas de organização social e de exploração do trabalho. Do mesmo modo, embora não de maneira simétrica e com imensa disparidade de poder, o lado espanhol também saiu afetado. O humanismo de Las Casas, por exemplo, e a emergência da ideia de direitos humanos que começa a ser construída a partir daí é prova disso. O pensamento fronteiriço, ou pensamento liminar é exatamente esse pensamento que é construído na relação entre os diferentes universos do mundo colonial.

Da mesma forma, enquanto as Américas empobreciam em todos os aspectos, a injeção de riqueza material na Europa, proveniente da exploração colonial, começaria a mudar a inserção do continente europeu naquilo que Wallerstein chamaria de sistema-mundo mundo. O que Wallerstein chamará de sistema-mundo moderno, em termos básicos, é a formação, pela primeira vez na história, de uma autoconsciência global da diversidade e totalidade do planeta, que cada vez mais vai se articular em torno dos interesses do capitalismo. Nesse momento de consolidação do sistema-mundo, a Europa irá desempenhar um papel central.

O conceito de sistema-mundo moderno passará por uma crítica feita por intelectuais latino-americanos, especialmente do filósofo argentino, radicado no México, Enrique Dussel, e do economista peruano Aníbal Quijano. Eles compreendem que a natureza da própria modernidade Europeia está enraizada na construção do sistema colonial de exploração. Desse momento em diante, o sistema-mundo de Wallerstein passa a ser entendido como o sistema-mundo colonial/moderno.

Aníbal Quijano aprofunda sua crítica, afirmando que o próprio capitalismo impõe um padrão de poder baseado nas formas de dominação colonial. É o que Quijano chamará de “padrão de poder colonial”, ou de “colonialidade do poder”. A colonialidade do poder, por sua vez, se refere a todos os mecanismos de controle da subjetividade, exploração do trabalho e hierarquização do mundo (o racismo epistêmico, cultural e biológico) que forma a base do sistema-mundo sob domínio europeu.

O último conceito fundamental desse capítulo é próprio conceito de “gnose”. Gnose era o saber esotérico cultivado pelos primeiros cristãos. A gnose era um saber secreto, acessível apenas para iniciados. A partir do século 3, no entanto, o saber gnóstico, um saber cristão desenvolvido no cruzamento das concepções orientais e ocidentais sobre Cristo, que é uma variedade dentre uma infinidade de outros cristianismos, foi suplantado pela ortodoxia romana. Quando o Império Romano assumiu a nova religião ela também impôs uma homogeneidade acerca do pontos fundamentais do cristianismo.

Mignolo utiliza esse conceito, inspirado sobretudo em V. Mudimbe que, como Wallerstein, também leremos mais a frente. Mudimbe contrasta a gnose africana (os saberes tradicionais) à filosofia/episteme (ocidental). A filosofia e o saber ocidental moderno foi um instrumento de subalternização, hierarquização e dominação da África, de seus saberes, concepções de mundo e modos de vida.

Mignolo, por sua vez, utiliza o conceito de gnose para fazer um contraste tanto com a epistemologia (ou seja, o conhecimento sistemático, a ciência) quanto com a hermenêutica (o saber sobre a interpretação do sentido). Ambas as formas de conhecimento monopolizaram o saber ocidental e se sobrepuseram aos demais saberes locais. A ideia de gnose, tal como usada aqui, não é doxa – opinião – nem ciência/episteme – no sentido de um saber instrumental – e nem hermenêutica. A gnose é esse espaço aberto para os saberes marginalizados pelo Ocidente. Como pensamento fronteiriço, a gnose também não é recusa da ciência ou da hermenêutica. O que ela produz não é o saber tradicional, nem filosofia, nem ciência. Ela é exatamente um saber que atua lá e aqui ao mesmo tempo, no trânsito entre fronteiras.

O que justifica então a ideia de gnose? Para Mignolo, o projeto da gnose seria deslocar os conhecimentos hegemônicos, cristalizados, reafirmadores da dominação.

Portanto, é a partir desse quadro de referencia conceitual que Walter Mignolo busca construir sua proposta ou sua perspectiva de descolonização do pensamento.

[1] John Arnold, What is Medieval History? Cambridge: Polity Press, 2008, pp. 8-9.

Teoria da História | Leituras da Semana (11 a 14/04)

Olá senhoras e senhores,

Lembro ao pessoal da turma B, vespertino, que ainda estamos um pouco atrasados em relação ao nosso calendário. Dessa forma, na segunda feira ainda trataremos do texto nº 7 François Dosse, “O Historiador: um mestre da verdade”, in História, Editora Unesp, São Paulo, 2012, pp. 07-39. e na quarta leremos o texto nº 8 de Walter Mignolo, que segue abaixo.

Na turma C, noturno, essas são as leituras da semana:

11/04 8. Walter Mignolo, “A gnose e o imaginário do sistema mundial colonial:moderno”, in Histórias locais:projetos globais, UFMG, Belo Horizonte, 2003, pp. 23-76.

14/08. 9. José Carlos Reis, “A escolar metódica, dita positivista”, in A história entre a filosofia e a ciência, Editora Autêntica, Belo Horizonte, 2006, pp. 15-32.

Teoria da História | Leituras da semana (23 a 25/06)

Olá pessoal,

Essas são as leituras da próxima semana.

23/06 – V.Y. Mudimbe, “Discurso de poder e o conhecimento da alteridade”, in A invenção de África. Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento, Edições Pedago, Mangualde, 2013, pp. 15-42.

25/06 – Walter Mignolo, “Os Estudos Subalternos são pós-modernos ou pós-coloniais. As políticas e sensibilidades dos lugares geoistóricos”, in Histórias locais/projetos globais, UFMG, Belo Horizonte, 2003, pp. 239-294.

Teoria da História | Notas para a aula sobre o texto de Walter Mignolo “A gnose, e o imaginário do sistema mundial colonial/moderno”

Pessoal, estou disponibilizando algunas notas rápidas sobre o texto do Walter Mignolo que começamos a discutir na última aula.

Trata-se de um pequeno texto tentando contextualizar, de forma preliminar, os conceitos centrais do capítulo que lemos.

Notas para a aula sobre o texto de Walter Mignolo “A gnose, e o imaginário do sistema mundial colonial/moderno”