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Os melhores livros que li em 2015

Olá pessoal,

Resolvi fazer uma lista com alguns dos livros mais interessantes que li em 2015. Não é uma lista dos melhores livros lançados em 2015. Trata-se de um conjunto livros que li ao longo do ano, alguns na fila há muito tempo, outros que me apareceram ou foram sugeridos por outras pessoas.

A ordem não é uma hierarquia de preferência. Apenas listei os títulos a medida que fui lembrando. Há muita coisa que ficou de fora, especialmente os artigos. Talvez eu devesse fazer também uma lista de artigos… Vamos ver…

1 • David Harvey, Paris, capital da modernidade. (Boitempo Editorial, 2015).

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Harvey busca mostrar as tensões, os debates e os conflitos de classe que determinaram o sentido das mudanças urbanísticas e as consequentes transformações nas relações sociais. As transformações de Paris nesse período, incluindo o aumento da importância dos paradigmas de planejamento urbano,  tiveram um caráter marcadamente anti-revolucionário e de controle da circulação da classe trabalhadora. As reformas urbanas da capital francesa tornaram-se paradigma para o mundo inteiro, e foram consideradas como o modelo ideal da cidade moderna.
O autor faz esse mergulho na invenção da nova Paris se utilizando de um conjunto heterogêneo de fontes, buscando na literatura, no jornalismo, na arte e nas estatísticas as codificações dos conflitos e das relações de classe que levaram a transformação da cidade.

2 • Silvio Pons, A revolução global. História do comunismo internacional, 1917-1991. (Contraponto, 2015).

pons-1Sílvio Pons faz uma espécie de arqueologia da ideia de revolução surgida a partir do modelo da Revolução Russa. É um livro crítico, mas consequente, que busca mostrar os fundamentos políticos e teóricos, forjados nas lutas sociais e nos debates políticos e intelectuais no interior do movimento operário europeu entre o fim do século 19 e início do século 20, e que se tornaram o centro da concepção da missão revolucionária.  O autor expõe de maneira clara e muito precisa os pressupostos, os problemas e os limites dessa concepção, a partir de uma pesquisa em fontes dos principais teóricos soviéticos, de documentos do PC e da Internacional Comunista,

3 • Jacques Rancière, A fábula cinematográfica. (Papirus, 2013).

10896351_10207848366228158_3511613835050795178_oA maior parte dos capítulos trata das estratégias narrativas no cinema. Há um interessantíssimo capítulo na parte final do livro, que trata da relação entre documentário e ficção, que é a melhor teorização sobre o tema que já li. É um livro importante para a discussão sobre quais são as verdades do cinema (ou as verdades da ficção), e também quais são as ficções da história ou das nossas percepções da realidade.

4 • Mircea Eliade, História das crenças e das ideias religiosas. De Gautama Buda ao triunfo do cristianismo. Vol. II. (Zahar, 2011).

1514614_10207119791934256_1782780472767387283_nMircea Eliade é o mais célebre historiador das religiões do século 20, e autor de um conjunto considerável de livros sobre o tema. Esse é o segundo volume de sua obra mais popular, que trata do período que vai de Buda até a Idade Média ocidental, quando o cristianismo se consolida.
O que há de interessante nessa obra é a possibilidade de entender o que há de comum e diferente nas diversas manifestações religiosas em um certo momento da história. É uma oportunidade de ter uma perspectiva transcultural e conceitual mais abrangente sobre o fenômeno religioso.

5 • Santiago Castro-Gómez, La poscolonialidad explicada a los ninos. (Editorial Universidad del Cauca, 2005).

O autor é professor Pontificia Universidad Javeriana de Bogotá, e do Instituto Pensar da Colômbia. Nesse livro Santiago Castro-Goméz explica a emergência da reflexão e das teorias pós-coloniais da Índia e da África, e busca explicar também como a América Latina se insere nesse debate. É um livro que sintetiza o tema mostrando os limites e as possibilidades da crítica ao eurocentrismo.
O livro também ajuda a desmistificar a crítica pós-colonial, a qual muito gente prefere fazer referência utilizando aspas irônicas para isolar a “Teoria pós-colonial”, como se fosse uma espécie de flor exótica.

6 • Alun Munslow, Desconstruindo a história. ( Ed. Vozes, 2009).

114835807_1ggÉ um livro que interessa sobretudo aos historiadores, ou a quem quer se aprofundar numa discussão sobre os fundamentos da produção do conhecimento historiográfico. Em grande parte, o livro tenta lidar com as principais tendências teóricas do século 20 acerca da representação e da escrita da história. Munslow tenta repensar os problemas colocados pela reflexão historiográfica do século 20 a partir de uma perspectiva teórica geralmente identificada como pós-moderna, especialmente a partir do questionamento do estatuto da linguagem na produção historiográfica.

7 • Michael Mann, Fascistas. (Record, 2008).

11667367_10206943874096420_6150396595041690413_nMann faz uma sociologia histórica do fenômeno do fascismo na Europa. O que acho interessante na argumentação do autor é sua precisão histórica e sociológica sobre as condições que fizeram emergir o fascismo como uma alternativa política e ideológica no início do século 20. Ele identifica de maneira muito rigorosa o desenvolvimento e a expansão dos movimentos fascistas fazendo questão de diferenciá-los de outros fenômenos autoritários contemporâneos.
Para mim, esse livro também serviu para fundamentar uma rejeição ao abuso da palavra fascismo, que atualmente tem sido empregada de forma indiscriminada, muitas vezes como uma categoria de acusação contra os adversários políticos, ou como uma forma genérica e mistificadora de denominar fenômenos autoritários que não são necessariamente fascistas.

8 • Susan Linfield, The cruel radiance: photography and political violence. (University Of Chicago Press, 2012).

1379437_10202077984852230_2057615748_nNesse livro a autora busca repensar a relação entre fotografia e violência. Depois de anos durante os quais a posição de Susan Sontag sobre a “estetização da violência” se tornou uma espécie de filosofia da fotografia, e um mantra repetido ad nauseum consciente e inconscientemente por praticamente todo mundo, Linfield desconstrói de forma magistral os clichés sontaguianos através de uma pesquisa rigorosa e teoricamente bem fundamentada sobre o tema
Diferente da especulação ensaística/literária de Sontag, Linfield tras para o debate a voz dos produtores das imagens, dialoga com fotógrafos acerca de suas  justificativas e elaborações sobre o caráter, os dilemas, as virtudes e os problemas de seu trabalho. No livro, nós podemos entender melhor os diversos graus de mediação entre a imagem da violência e sua circulação, desde a motivação dos fotógrafos em realizar tal tipo de trabalho, até as mediações exercidas pelos editores, pelas ONGs, por agências governamentais e outros agentes.
O resultado do trabalho, portanto, é um quadro bastante mais complexo e desafiador que o texto majoritariamente monológico de Sontag. Linfield encara as polêmicas e os temas sensíveis com a segurança que uma pesquisa bem realizada permite.
De toda forma, permaneceremos durante muito tempo atrasados em relação a esse debate. Enquanto os livros de Sontag são publicados por uma das mais importantes editoras brasileiras, o trabalho de Linfield, facilmente acessível aos pesquisadores norte-americanos, provavelmente nunca será traduzido ao português.

9 • Hans Ulrich Gumbrecht, Produção de presença. O que o sentido não consegue transmitir. (Contraponto/PUC, 2010).

p7725485250_gÉ um dos livros mais intrigantes li que nos últimos anos e ainda estou digerindo as teses. Trata-se de uma proposta de pensar a produção do conhecimento, incluindo a produção artística, a partir de uma perspectiva que não seja nem compreensiva/interpretativa – o projeto da Hermenêutica – nem explicativa – o projeto da ciência e do Iluminismo.
Como é possível produzir, colocar em circulação e se relacionar com coisas e com o mundo a partir de outra perspectiva? É nesse sentido que ele propõe a ideia de produção de presença. Não é um projeto absolutamente inédito, pois lembra muito a crítica minimalista a arte moderna, por exemplo. De toda forma, é interessante pensar essa questão a partir das humanidades. O que significaria a produção de presença no campo da história, da antropologia, da sociologia?

10 • Glaucio Ary Dillon Soares, Não matarás: desenvolvimento, desigualdade e homicídios. (FGV, 2008).

12030315_10207507141897763_6784811609885842407_oGlaucio Ary Dillon Soares é um dos maiores especialistas em segurança pública e violência do Brasil. Li o livro com o intuito de encontrar alguma explicação geral para a nossa violência. O autor, no entanto, evita qualquer explicação meta-teórica ou totalizante. Para ele há um conjunto grande e heterogêneo de fatores, com diferentes pesos e variantes nas diversas regiões do país que resultam nos números da violência que o Brasil apresenta.
De certa forma, o livro é contra-intuitivo a medida que desfaz as visões do senso comum, mesmo o senso comum acadêmico sobre as causas da violência. Um elemento desse senso comum que o autor desfaz é a ideia de que a violência está sempre em ascensão, de que a violência aumenta ano após ano. O que os dados mostram, no entanto, é o contrário. A violência, via de regra, vem diminuindo ano após ano.
O livro não oferece explicações fáceis, mas ajuda a colocar em perspectiva a complexidade do tema da violência no Brasil, a partir de dados e estatísticas. Não é um tema de fácil entrada, como aparenta ser. Pensar a violência requer pensar diferentes variáveis em diferentes planos. Não é um tema sobre o qual se possa pensar de maneira linear ou a partir de um modelo mecânico de causas e consequências.

11 • Ariella Azoulay, Civil imagination: A political ontology of photography. (Verso Books, 2012).

41sj2wi2d3l-_sx329_bo1204203200_Ariella Azoulay é uma das principais teóricas da fotografia atualmente. Ela vive entre Israel e os EUA e sua obra tenta sintetizar uma reflexão entre teoria política e a potência da imagem, a partir sobretudo de Walter Benjamin e Giorgio Agamben. Mas também a partir de sua experiência e engajamento no debate acerca do conflito Israel/Palestina.
Nesse livro, como no  anterior (The civil contract of photography, Zone Books, 2008) ele propõe uma definição bastante original de fotografia, contrapondo-se às ontologias institucionalistas e técnicas, (Philippe Dubois, Vilem Flusser, etc) mais conhecidas.
Para Azoulay, a fotografia não é nem um objeto, nem a imagem, nem a técnica, nem suas instituições. A fotografia é, para ela, uma relação. Uma espécie de contrato social que se estabelece entre quem é fotografado, quem fotografa e o expectador da fotografia. A fotografia, portanto, é uma espécie de acordo feito por uma comunidade aberta formada pelas pessoas que orbitam em torno do evento fotográfico.
Azoulay concebe a fotografia também, não apenas como uma forma de discurso político sobre a sociedade – o que obviamente é – mas ela é também uma espécie de conhecimento público, de ato civil, e portanto, de desafio a versão da história e dos acontecimentos que o soberano tenta impor.
Por conta disso e outras questões que não caberia aqui, Ariella Azoulay é, na minha visão, a teórica da fotografia mais desafiante do momento.

12 • Michael Fried, Art and objecthoodEssays and Reviews (University of Chicago Press, 1998) e Absorption and theatricality: painting and beholder in the Age of Diderot. (University of Chicago Press, 1988).

41nmbone3nl-_sy344_bo1204203200_Optei por destacar dois livros clássicos de Michael Fried, um dos mais importantes críticos/historiadores da arte do século 20. O primeiro livro é uma coletânea de artigos publicados entre os anos 60 e 70 com uma crítica ao minimalismo e seu projeto. O próprio Fried, em diversas oportunidades, chegou a reconhecer que ele perdeu esse debate. Ou seja, esse já era um debate ultrapassado quando o livro foi publicado. De toda forma, ele é ainda um importante para entender o que estava em jogo com o declínio da pintura nos anos 50.
Para Fried, um dos vários críticos importantes que orbitava em tornos dos paradigmas de Clement Greemberg, o problema do minimalismo foi a consequência da confusão que se estabeleceu entre obra de arte e objeto. Uma derivação da objetualidade do minimalismo foi que, ao invés de seus expoentes continuarem na busca da autonomia da forma nas artes plásticas (como os expressionistas abstratos haviam tentando), eles acabaram criando obras de arte dependentes, obras de arte que Fried chamou de teatrais. Ou seja, um tipo de arte no qual o sentido já não estava mais contido na própria obra, mas que dependia em grande medida da relação com o expectador, tal como a performance de um ator que só se completa no pública e para o público.
51pctnw44dl-_sx348_bo1204203200_No segundo livro, “Absorption and theatricality“, Fried parte da crítica do teatro de Diderot para pensar os caminhos que a pintura tomou no final do século 18 e início do século 19. Diderot havia criticado duramente o teatro declamatório, aquele no qual o ator interpreta o texto se dirigindo diretamente ao expectador. O crítico francês havia destacado as virtudes do teatro naturalista, aquele no qual o ator trabalha como se o público não estivesse presente, sem notar a presença da platéia. Para Diderot, esse aparente desprezo do personagem pelo público na verdade demandava sua atenção e criava uma tensão entre o ator e o público. De certa maneira, Fried nota que a pintura também começou a expressar o seu gosto pelo naturalismo na mesma época. Ao invés de pinturas nas quais os personagens encaravam o expectador frontalmente (muito comum no Renascimento e Barroco) passou-se a valorizar composições nas quais os personagens eram representados como se o expectador não existisse, personagens absortos em sua própria atividade.
Em outra obra, mais recente, (Why photography matters as art as never before, Yale University Press, 2008) Fried voltaria a essa teoria para pensar a fotografia contemporânea, especialmente na obra de Jeff Wall.

13 • Andrew Vincent, Ideologias políticas modernas. (Jorge Zahar, 1995).

ideologias_politicas_modernas_1266172577bO livro de Andrew Vincent é uma espécie de compêndio ou enciclopédia sobre as principais ideologias políticas do século 19 ao 21. Do Liberalismo ao ambientalismo, passando pelo Comunismo, Anarquismo, Feminismo etc. É um livro que oferece uma história das origens e dos desenvolvimentos dessas ideologias. É um livro para quem busca uma síntese precisa e com boas referências.
Eu destacaria a importância do primeiro capítulo, onde o autor faz uma história do conceito e do debate acadêmico acerca da ideologia. Lá você poderá entender, por exemplo, por que, após a II Guerra Mundial, a palavra “ideologia” passou a ser um termo para designar majoritariamente com as correntes de esquerda, como se o liberalismo e o conservadorismo não fossem também ideologias.
É um livro básico e fundamental nesse momento de confusão ideológica em que as pessoas misturam nazismo com comunismo, que liberais defendem o ensino religioso nas escolas públicas, e criticam a agenda de igualdade do feminismo, agindo na verdade como a pior cepa do conservadorismo reacionário.

14 • Victor Klemperer, LTI: a linguagem do Terceiro Reich. (Contraponto, 2009).

10984475_10207000215224913_7199280617773347056_nProvavelmente o livro mais surpreendente que li em 2015. Trata-se de um diário mantido pelo linguista judeu-alemão Victor Klemperer, que ao longo dos anos 30 e 40 observou a ascensão do Nazismo, a chegada de Hitler ao poder, e a guerra. Nesse diário, o autor registra conversas, diálogos, reflexões e observações que mostram como o nazismo afetou o vocabulário cotidiano dos alemães, como mudou a forma de pensar, de se expressar, de narrar os acontecimentos, e de justificar as próprias escolhas.
É um livro excepcional, que mostra de fato, em primeira mão, o que significa dialogar com nazistas e fascistas no momento do apogeu dessas ideologias.

15 • Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. (Instituto Sócioambiental, 2014).

11412448_10206596104042386_6140690700561834190_nO livro de Danowski e Viveiros de Castro é uma reflexão filosófica sombria sobre o futuro a partir das previsões de uma catástrofe ambiental iminente e inexorável. Os autores tomam essas previsões como certas e inescapáveis: haveremos de passar por algo como um apocalipse, marcado pela fome, depopulação e drásticas mudanças climáticas .
Dessa forma, o que nos resta é aprender, ou começar a construir um repertório de alternativas de sobrevivência para as reduzidas camadas da população humana que restarão no futuro.

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