Category Archives: Metodologia da História

Por que estudar História?

Laura de Mello e Souza

Laura de Mello e Souza é professora titular de História Moderna da Universidade de São Paulo. É autora de O Diabo e A Terra de Santa Cruz (1986) e O Sol e a Sombra (2006), entre outros livros. Organizou e foi co-autora do primeiro volume de A História da Vida Privada no Brasil.

Para responder esta pergunta, a primeira frase que me ocorre é a resposta clássica dada pelo grande Marc Bloch a seu neto, quando o menino lhe perguntou para que servia a História e ele disse que, pelo menos, servia para divertir. Após 35 anos de vida profissional efetiva, como pesquisadora durante seis anos e, desde então – 29 anos – também como docente na Universidade de São Paulo, considero que a diversão é essencial, entendida no sentido de prazer pessoal: a melhor coisa do mundo é fazer algo que gostamos de fato, e eu sempre adorei História, sempre foi minha matéria preferida na escola, junto com as línguas em geral, sobretudo italiano e português, e sempre mais a literatura que a gramática.

Mas a História é, tenho certeza disso, uma forma de conhecimento essencial para o entendimento de tudo quanto diz respeito ao que somos, aos homens. Os humanistas do renascimento diziam que tudo o que era humano lhes interessava. A História é a essência de um conhecimento secularizado, toda reflexão sobre o destino humano passa, de uma forma ou de outra, pela História. Sociologia, Antropologia, Psicologia, Política, todas essas disciplinas têm de se reportar à História incessantemente, e com tal intensidade que o historiador francês Paul Veyne afirmou, com boa dose de provocação, que como tudo era História, a História não existia (em Como escrever a História). Quando os homens da primeira Época Moderna começaram a enfrentar para valer a questão de uma história secular, que pudesse reconstruir o passado humano independente da história da criação – dos livros sagrados, sobretudo da Bíblia – eles desenvolveram a erudição e a preocupação com os detalhes, os fatos, os vestígios humanos – as escavações arqueológicas, por exemplo – e criaram as bases dos procedimentos que até hoje norteiam os historiadores. Mesmo que hoje os historiadores sejam descrentes quanto à possibilidade de reconstruir o passado tal como ele foi, qualquer historiador responsável procura compreender o passado do modo mais cuidadoso e acurado possível, prestando atenção aos filtros que se interpõem entre ele, historiador, e o passado. Qualquer historiador digno do nome busca, como aprendi com meu mestre Fernando Novais, compreender, mesmo se por meio de aproximações. Compreender importa muito mais do que arquitetar explicações engenhosas ou espetaculares, e que podem ser datadas, pois cada geração almeja se afirmar com relação às anteriores ancorando-se numa pseudo-originalidade.

Sem querer provocar meus companheiros das outras humanidades, eu diria que a Antropologia nasce a partir da História, e porque os homens dos séculos XVI, XVII e XVIII começaram a perceber que os povos tinham costumes diferentes uns dos outros, e que esses costumes deviam ser entendidos nas suas peculiaridades sem serem julgados aprioristicamente. É justamente a partir desse conhecimento específico que os observadores podem estabelecer relações gerais comparativas e tecer considerações, enveredar por reflexões mais abstratas. Portanto, a História permite lidar com as duas pontas do fio que possibilita a compreensão do que é humano: o particular e o geral.

A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – na história recente do país, o caso de meu estado e de minha cidade são patéticos – de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivo e que amo profundamente fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.

Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.●

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A colonialidade do saber

O livro abaixo é uma coletânea de textos de autores latino-americanos, alguns dos quais já mencionei em sala ou já lemos. A obra é uma crítica a geopolítica do saber. Ela busca mostrar os mecanismos de reprodução do padrão de poder do conhecimento instituído pelo eurocentrismo. Além disso, oferece algumas reflexões importantes sobre como problematizar a atual estrutura e hierarquia no mundo do saber.

A colonialidade do saber: Eurocentrismo e ciências sociais Perspectivas latino-americanas. Edgardo Lander. [Organizador]

Santiago Castro-Gómez. Fernando Coronil. Enrique Dussel. Arturo Escobar. Edgardo Lander. Francisco López Segrera. Walter D. Mignolo. Alejandro Moreno. Aníbal Quijano.

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Revista de Estudos Ibero-Americanos

Novo número:

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Festival de Documentários em Brasília

Quisera eu ter tempo de ir ao cinema… mas para quem pode, o festival “É tudo verdade” é imperdível.

Cicero Dias, de Vladimir Carvalho. Divulgação.
Cicero Dias, o Compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho. Divulgação.

O É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários vai de 5 a 8 de maio no Espaço Itaú de Cinema, com sessões gratuitas. A programação traz a exibição dos filmes vencedores da competição brasileira e da internacional e uma seleção com seis títulos das diversas mostras do festival.“Brasília honra-nos com a mais antiga itinerância do É Tudo Verdade, realizada desta vez com a parceria do Espaço Itaú de Cinema”, afirma o crítico Amir Labaki, criador e diretor do festival. O público brasiliense, segundo Labaki, terá o privilégio de assistir em primeira mão a alguns dos mais instigantes documentários brasileiros e internacionais, antes mesmo da estreia mundial. Será uma rara oportunidade de se manter atualizado, pois a maior parte dos filmes não terá exibição comercial no Brasil.

Um dos destaques da programação, que integra a competição nacional, é o documentário “Cícero Dias, o Compadre de Picasso”, do prestigiado diretor Vladimir Carvalho, que resgata o período em que o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003) viveu em Paris, durante a ditadura Vargas, onde conheceu e se tornou amigo do catalão Pablo Picasso, exilado do regime franquista.

Gabo la creación de Gabriel Garcia Marquez.
Gabo la creación de Gabriel Garcia Marquez.

Outra ditadura, agora a de 1964, está presente no filme “Lampião da Esquina”, de Lívia
Perez, integrante da mostra O Estado das Coisas, sobre o trabalho de resistência desenvolvido por jornalistas, artistas e intelectuais brasileiros no jornal “O Lampião”, que retratava o ponto de vista dos homossexuais em questões políticas e comportamentais, em pleno regime militar.Integrante da mostra Foco Latino-americano, o documentário “Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez”, do britânico Justin Webster, explora a trajetória do escritor colombiano (1927-2014), prêmio Nobel de Literatura, buscando na infância do autor o material que alimentou sua obra premiada.

Um Caso de Família.
Um Caso de Família.


Programação:
05/05 quinta feira – sessão inaugural, aberta ao público
20h30 – mostra COMPETIÇÃO BRASILEIRA – LONGAS / Cícero Dias, o Compadre de Picasso /VLADIMIR CARVALHO /BRASIL / 79min

06/05 sexta feira
16h30 – mostra O ESTADO DAS COISAS / Lampião da Esquina / LÍVIA PEREZ / BRASIL / 82min
18h30 – mostra COMPETIÇÃO BRASILEIRA – LONGAS / Cícero Dias, o Compadre de Picasso /VLADIMIR CARVALHO /BRASIL / 79min
20h30 – VENCEDOR COMPETIÇÃO BRASILEIRA LONGAS OU MÉDIAS METRAGENS / O Futebol / SERGIO OKSMAN / BRASIL, ESPANHA / 70min

07/05 sábado
16h30 – COMPETIÇÃO INTERNACIONAL – LONGAS / Chicago Boys / CAROLA FUENTES, RAFAEL VALDEAVELLANO / CHILE / 96min
18h30 – mostra FOCO LATINO / Gabo: a Criação de Gabriel Gárcia Márquez / JUSTIN WEBSTER /ESPANHA / 90min
20h30 – VENCEDOR COMPETIÇÃO INTERNACIONAL LONGAS / Um Caso de Família / TOM FASSAERT /HOLANDA, BÉLGICA, DINAMARCA /116min
08/05 domingo
16h30 – mostra CINEMA OLYMPIA / CINE OLYMPIA / Os Campeões de Hitler / JEAN-CHRISTOPHE ROSÉ / FRANÇA / 102min
18h30 – mostra O ESTADO DAS COISAS / Lampião da Esquina / LÍVIA PEREZ / BRASIL / 82min
20h30 – mostra O ESTADO DAS COISAS / Atentados: As Faces do Terror / STÉPHANE BENTURA /FRANÇA / 95min

Sinopses:

GABO: A CRIAÇÃO DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Direção: Justin Webster
Espanha, 90′, 2015, 10 anos
MOSTRA FOCO LATINO-AMERICANO
O documentário do britânico Justin Webster explora os caminhos inseparáveis da vida e da obra do escritor Gabriel García Márquez (1927-2014), especulando como o menino nascido num obscuro vilarejo colombiano, Aracataca, transforma-se em jornalista e escritor vencedor do Nobel de Literatura. Usando suas memórias infantis como matéria-prima de uma sensibilidade mágica, ancorada num constante engajamento político e social, Márquez incendiou a imaginação de milhões de leitores nos quatro cantos do mundo.

OS CAMPEÕES DE HITLER
Direção: Jean-Christophe Rosé
França, 102′, 2015, 12 anos
MOSTRA CINEMA OLYMPIA
Assim que tomaram o poder, os nazistas converteram o esporte num dos mais eficazes
instrumentos de propaganda de seu objetivo de criação de “um novo homem”. Atletas
alemães foram pressionados a quebrar todos os recordes, em nome de anunciar ao mundo a superioridade ariana. O ponto alto seriam as Olimpíadas de Berlim, em 1936, mas ali mesmo a falácia começa a ruir.

LAMPIÃO DA ESQUINA
Direção: Lívia Perez
Brasil-SP, 82′, 2016, 18 anos
MOSTRA O ESTADO DAS COISAS
Inspirado no jornal norte-americano “Gay Sunshine”, surgiu no Brasil, em abril de 1978, em plena ditadura, o jornal “O Lampião”, retratando o ponto de vista dos homossexuais sobre diversas questões, inclusive a sexualidade. Um grupo de jornalistas e escritores do Rio e de São Paulo se uniram em torno do projeto, alimentando uma publicação que abriu caminhos para a imprensa da época, abordando temas polêmicos naqueles dias, como racismo, aborto, drogas e prostituição.

ATENTADOS: AS FACES DO TERROR
Direção: Stéphane Bentura
França, 95′, 2016, 16 anos
MOSTRA O ESTADO DAS COISAS
Buscando compreender as razões que levaram aos atentados contra o semanário “Charlie Hebdo”, o mercado Hyper Cacher, em janeiro de 2015, e a casa de shows Bataclan, em novembro do mesmo ano, examinam-se as trajetórias de alguns de seus perpetradores. Retraçando sua história e ouvindo seus familiares, conhecidos, professores e especialistas, além de recorrer a materiais de arquivo, busca-se identificar os pontos de ruptura que levam à alienação destes renegados da sociedade.

CHICAGO BOYS
Direção: Carola Fuentes, Rafael Valdeavellano
Chile, 96′, 2015, 12 anos
MOSTRA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL: LONGAS OU MÉDIAS-METRAGENS
Responsáveis pelo modelo econômico ultraliberal instalado no Chile na ditadura Augusto Pinochet (1973-1990), os chamados “Chicago Boys” – economistas formados na Universidade de Chicago – recontam sua formação. São entrevistados Rolf Lüders e Sergio de Castro, ministros de Pinochet; Ernesto Fontaine, colaborador do regime militar e formador de economistas; Carlos Massad, ex-presidente do Banco Central e ministro do governo Eduardo Frei; e Ricardo Ffrench-Davis, a voz mais crítica sobre as práticas neoliberais no Chile.

CÍCERO DIAS, O COMPADRE DE PICASSO
Direção: Vladimir Carvalho
Brasil-DF, 79′, 2016, 14 anos
MOSTRA COMPETIÇÃO BRASILEIRA: LONGAS OU MÉDIAS-METRAGENS
Pintor pernambucano ligado aos modernistas, Cícero Dias (1907-2003) radicou-se em Paris a partir de 1937, fugindo à perseguição política do Estado Novo. Apesar da distância do país natal, ele nunca perdeu de vista as cores e os sons de sua infância, na casa de Jundiá, mesclando essas raízes com a convivência com nomes de ponta das vanguardas europeias, como Pablo Picasso, Fernand Léger e Joan Miró. Dessa troca de influências, nasceu um pintor de repercussão internacional, que transformou toda sua vivência, inclusive sua reclusão durante a II Guerra, em base de uma arte que atravessa fronteiras.

O FUTEBOL
Direção: Sergio Oksman
Brasil, Espanha, 70’, 2015, Livre
VENCEDOR DA COMPETIÇÃO BRASILEIRA: LONGAS OU MÉDIAS-METRAGENS
Sergio e seu pai, Simão, não se viram ao longo de 20 anos. A realização da Copa de 2014 no Brasil fornece ao filho, que mora na Espanha, um pretexto para conviver algum tempo com o pai, retomando seu antigo hábito de assistirem a jogos juntos, mantido quando o filho era garoto. À medida que ambos se reaproximam, suas conversas os levam ao encontro do passado e das questões deixadas em aberto pela distância. Correndo em paralelo com os jogos da Copa, seus encontros deixam claro que algo escapou do plano inicial. E que esta viagem poderá trazer, mais do que reconciliação, uma exploração em território desconhecido.

UM CASO DE FAMÍLIA
Direção: Tom Fassaert
Holanda, Bélgica, Dinamarca, 116’, 2015, 12 anos
VENCEDOR DA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL: LONGAS OU MÉDIAS-METRAGENS
Para o cineasta Tom Fassaert, sua avó paterna, Marianne Hertz, sempre foi um mistério. Ele a conheceu por contatos esparsos e, particularmente, pelas histórias negativas que seu pai, Rob, sempre lhe contou sobre ela – como a de que sua mãe era uma mulher fatal, devoradora de homens, que pôs os filhos num orfanato e abandonou a família para viver na África do Sul. Quando Tom completa 30 anos, recebe um inesperado convite da avó para visitá-la. Decide, então, que esta será uma excelente oportunidade para confrontar os diferentes mitos em torno dela e dar-lhe a chance de contar diante da câmera sua própria versão dos fatos.

O Futebol.
O Futebol.

Serviço: É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários
Data: De 5 a 8 de maio
Local: Espaço Itaú de Cinema – Shopping CasaPark (SGCV, s/n – 3A – Guará)
Entrada franca
97 lugares.

O início do Fim da História: Billy Elliot e a morte da classe operária

A sequência final de Billy Elliot (Dir: Stephen Daldry,1998, UK) é vista por muita gente como a conclusão de uma história de vitória e superação. O pequeno Billy, oriundo da uma família operária inglesa, rompe todas as barreiras de classe e preconceito, e se transforma, aparentemente, num bailarino de sucesso. A cena que mostra os bailarinos na coxia correndo para olhar a entrada triunfal de Billy no palco mostra, através de seus olhares de admiração, a grandeza do personagem. No entanto, para mim ela sempre sinalizou a ambivalência inconciliável de um drama muito mais complexo e muito menos feliz.

Nessa sequência, o pai de Billy e Tony, o irmão mais velho, vão a Londres ver uma exibição de Billy, já adulto e, ao que parece, o protagonista da peça. Essa é uma sequência ambivalente porque, de um lado, eles representam a decadência da classe operária inglesa e do trabalhismo de esquerda, esmagados pela Margareth Thatcher na greve de 1984, evento no qual o filme é ambientado.

Essa greve marcou a destruição do último front de resistência sindical, e abriu o caminho para a vitória final do neoliberalismo na Inglaterra, o mesmo modelo que seria exportado para o resto do mundo. A destruição da esquerda operária foi vista como a confirmação do lema thatcheriano neoliberal TINA (“There Is No Alternative!”). É o início do Fim da História.

Esse momento marca um golpe muito forte na ideia de que a saída para os problemas sociais era a luta coletiva. A sequência em que Tony foge da polícia entrando e saindo da casa das pessoas do bairro operário, e contando com a ajuda delas, mostra um pouco dessas formas de luta, confronto e solidariedade da classe trabalhadora. E é muito significativo nessa sequência que Billy assista toda a cena de cima do muro, de um ponto de vista privilegiado e seguro, enquanto seu irmão apanha da polícia, tendo “London Calling”, do The Clash, como trilha.

A cena do pai de Billy e Tony sentados no teatro, envelhecidos e deslocados, num ambiente que pertence a uma outra classe, evoca uma certa nostalgia e também a derrota. Os dois representam o passado, são fósseis da classe operária que não existe mais, personificam formas de luta que, naquele momento, pareciam extintas. E embora carreguem o peso da derrota, ao mesmo tempo eles parecem felizes porque Billy encontrou seu caminho.

Por outro lado, Billy, tal como eu entendo esse filme, é o reverso dessa moeda. Ou seja, ele sinaliza a vitória do individualismo do neoliberalismo. Ele escapou do infortúnio da sua classe através dos mecanismos da meritocracia e do talento pessoal. Ele era um sujeito com um talento excepcional e com isso encontrou uma via de saída da reprodução da vida operária. Diferente do seu irmão, ele não repetiria a vida de seu pai.

Todo o conflito do filme, na verdade, é uma dramatização de um processo de ruptura do destino de classe. A resistência do pai em aceitar um filho bailarino, bastante misturada com o preconceito machista contra uma arte associada ao feminino, é uma tentativa de evitar que ele abandone sua classe e também os valores associados a ela.

A cena mais dramática do filme, por exemplo, é exatamente aquela que marca o momento em que o pai, talvez vislumbrando a derrota histórica da classe operária, resolve furar a greve para conseguir dinheiro para que Billy possa participar da seleção do Royal Ballet School. Tony, uma espécie de anti-herói que desde o início do filme antagoniza com Billy, impede a traição do pai. Enquanto os dois se abraçam na porta da mina, o pai se justifica dizendo que é preciso dar uma chance a Billy de escapar daquela vida. Mas, ao fim e ao cabo, é a solidariedade da classe operária que o salva. É a comunidade dos trabalhadores que se mobiliza em plena greve para conseguir o dinheiro que a família de Billy precisa.

A ambivalência da sequência final de Billy Elliot tem a ver com essa disjunção dos destinos. De um lado há a derrota do sonho coletivo da classe operária e, ao mesmo tempo, a vitória do indivíduo e do talento pessoal de Billy, que de outra forma estaria condenado a mesma derrota que seu pai e seu irmão representam.

Por fim, não acho que a sequência final baseada na presença de Billy em O Lago do Cisne, seja casual. Essa é uma história de dor, maldição, traição e amor no qual o final feliz de Odette é a reconciliação na morte com Siegfried, depois de sua traição. E isso, para mim, sinaliza qual é o horizonte de leitura do filme. Não é, como muita gente interpreta, a história do progresso e ascensão de um sujeito excepcional, mas sim uma bela história trágica cuja a aparente vitória do indivíduo é também uma narrativa sobre a derrota, da morte de uma classe e do fim da busca de uma alternativa coletiva para os problemas da sociedade.

Design e ideologia: duas edições de “Mein Kampf”

ifz-edition-mein-kampf-100-_v-img__16__9__l_-1dc0e8f74459dd04c91a0d45af4972b9069f1135Nos dois últimos meses os jornais têm publicado diversas matérias sobre a reedição do livro de Adolf Hitler, Mein Kampf. Os direitos de publicação pertenciam ao Estado da Bavaria, na Alemanha, que costumava colocar obstáculos a editoras interessadas em sua publicação. Mas o livro entrou em domínio público a partir do dia 1º de Janeiro de 2016, o que gerou diversos debates sobre se ele deveria ser republicada ou não.

Na Alemanha, o Institut für Zeitgeschichte (Instituto de História Contemporânea) havia anunciado já no ano passado, a publicação de uma edição crítica da obra. Ela conteria notas explicativas e ensaios que a contextualizaria. O livro foi lançado no dia 16 de janeiro, e a primeira edição com 14 mil exemplares esgotou-se em poucas horas.

Alguns editores mais importantes do mercado editorial brasileiro se colocaram contra a publicação da obra no país. Um dos editores da Companhia das Letras, por exemplo, chegou a dizer que não queria ter o livro de Hitler no seu currículo. No entanto, duas editoras anunciaram a publicação: a Geração Editorial e a Centauro.

O projeto da Geração Editorial prevê uma edição com notas da versão norte-americana de 1939, e dois ensaios escritos por historiadores. Segundo a editora, o livro será lançado em março de 2016. Já a Editora Centauro, que havia lançado o livro anos atrás mas tinha sido obrigada a recolhê-lo por violação de direitos autorais, já começou a comercializá-lo. No entanto, as principais livrarias do Brasil resolveram não comercializar o livro por não conter nenhum elemento de contextualização, o que é lamentável e suspeito.

Embora diferentes editoras possam ter posições diferentes sobre se o livro deveria ser publicado ou não, o fato é que o livro já estava disponível e circulava de forma mais ou menos aberta na internet e fora dela. Ou seja, o livro já circulava e circulará ainda mais após sua entrada em domínio público. A estratégia da censura ou da ignorância do livro não nos poupará do fato de que o livro existe e será lido. Talvez o único papel que nos caiba seja o de proporcionar subsídios para que seus leitores possam fazer interpretações mais bem informadas.

Um fator muito importante nesse momento é a escolha que as editoras fazem ao colocar o livro nas mãos do público. Isto é, como, e partir de que preocupações, o livro é remodelado para entrar em circulação? Nesse sentido, as opções feitas pela IfZ, a editora alemã, e as editoras brasileiras mostram radicais diferenças nas formas de se relacionar com a obra, produzir o objeto e promover o livro.

A IfZ destituiu o livro de todos os elementos simbólicos que fossem capazes de gerar qualquer atração ambígua. Não há absolutamente nenhum elemento pictórico que remeta ao nazismo. O livro tem uma tipologia neutra e uma capa em cores neutras, seguindo a tradição de livros acadêmicos de referência do país. E o título é algo como Hitler, Mein Kampf. Uma edição crítica. Ou seja, além de destituir a capa do livro de elementos gráficos que pudessem remeter ao nazismo, a editora também destituiu Hitler do lugar de autor. A obra em questão não é Mein Kampf, de Adolf Hitler, simplesmente. Trata-se agora de uma edição crítica da obra escrita por Hitler. E nessa obra o autor passa a ser objeto de análise, e não é mais um sujeito que fala sozinho.

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Além disso, o livro tem 28×21 cm e dois tomos com 1000 páginas em cada um. Ele tem dimensões relativamente grandes. Como objeto, não tem leveza alguma. É volumoso e pesado. Não é um livro que se carrega na bolsa, e a leitura requererá provavelmente algum apoio. Ou seja, não é um livro para diversão, que se leia no metrô ou no parque. Para lê-lo é preciso sentar, mobilizar tempo, atenção e enfrentar o texto original repleto de intervenções, afinal ele tem mais de 15 mil notas explicativas, segundo o editor.

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Com esse tratamento, a editora intervém de forma estratégica nas formas de relação com o livro e de sua circulação. Por conta de suas características gráficas (o formato) e editoriais (as notas de rodapé e os ensaios de críticos) dificilmente a edição alemã de Mein Kampf se tornará objeto de culto dos simpatizantes do nazismo.

O tratamento da Geração Editorial é bastante diferente e, em alguns aspectos, é oposto. As capas dos livros dessa editora lembram as capas de revistas semanais e tablóides. Elas são excessivamente carregadas, muitas vezes com um apelo sensacionalista. Parte de sua linha editorial explora justamente escândalos políticos. E, não raro, suas capas têm a fotografia de um político contraposta a um título elaborado ao modo de uma manchete jornalística bombástica.

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A edição de Mein Kampf da editora brasileira começará a ser comercializada em março, mas a capa já circula nas redes sociais. E a estratégia de capa é simetricamente oposta a da editora alemã. Nela vemos uma suástica ao fundo, o selo do Partido Nazista centralizado entre o título e o logo da editora, e uma fotografia bastante digna do próprio Hitler em primeiro plano. A capa ainda tem uma tonalidade ostensivamente apelativa em azul/verde e alaranjado, a paleta de cores que lembra os filmes apocalípticos do diretor Michael Bay, como Armagedon ou Transformers. Além disso, mantém Hitler como autor.

A Geração Editorial escolheu promover o livro apelando para a força das imagens do nazismo. Essa era uma estratégia de propaganda do próprio nazismo. Muito de seu apelo popular veio justamente do modo de exibição ostensiva de seus símbolos e imagens. Essa estética do nazismo, por sua vez, permite um vínculo muito ambivalente capaz de mover tanto o crítico do nazismo como o simpatizante. Com isso não quero dizer nem remotamente que a editora seja simpática ao nazismo. Não há dúvida alguma de que ela não é. Mas ela aposta numa ambiguidade em relação às imagens e símbolos que moldam o objeto, que a edição alemã fez questão de eliminar por boas e conhecidas razões, inclusive — ou sobretudo — razões de ordem ideológica.

Embora a editora tenha anunciado dois textos críticos acompanhando a obra, e notas de rodapé, é possível imaginar simpatizantes tirando selfies com o livro e o promovendo nas redes sociais não porque o livro foi publicado ou porque ele simplesmente existe. Mas porque as escolhas gráficas e editoriais permitem que os simpatizantes estabeleçam uma relação de empatia com o objeto. Obviamente não é papel do editor ensinar aos leitores como o livro deve ser lido, interpretado ou usado. Mas, as lições da edição alemã mostram que o editor pode diminuir a possibilidade de usos indesejados dos objetos que coloca em circulação.

A coragem da editora Geração Editorial em publicar o livro deve ser destacada. Eu sou favor da sua publicação, mas gostaria de ter visto um trabalho mais rigoroso e correto do ponto de vista gráfico, assim como um maior investimento do ponto de vista editorial. Os textos que acompanharão o livro certamente serão importantes. Mas não vejo razão, por exemplo, para que ela tenha notas que datam de 1939 por me parecerem muito defasadas. Elas foram elaboradas muito tempo antes do mundo tomar conhecimento da extensão do mal promovido pelo seu autor. E muito tempo antes dos principais estudos que existem hoje sobre Hitler e o nazismo. Essa publicação poderia ser a oportunidade de reunir uma comunidade de especialistas que pudesse proporcionar uma abordagem mais rica e mais complexa sobre a obra, e com isso termos no Brasil uma edição crítica de referência.

A fundação da KKK

 The white supremacist group was founded on December 24th, 1865.

By Richard Cavendish

In the hood: two members of the Ku Klux Klan, c.1870

In the hood: two members of the Ku Klux Klan, c.1870

The war between the States ended in 1865 with the North victorious and the Confederate South defeated. Slavery in the South was now illegal, the former slaves had the vote and groups of white Republicans started collecting batches of them and escorting them to the polls. The situation was resented and small white terrorist groups formed at various places to keep the blacks down and white supremacy intact. Far the best known would be the Ku Klux Klan.

The Klan began in Tennessee, in the small town of Pulaski, near Memphis. It was founded by Confederate army veterans at a drinking club there and the strange but memorable name was a combination of ‘clan’ and the Greek word kuklos, meaning ‘circle’ or, in this case, social club. Dressed up in scary costumes with hoods and masks, members rode about at night threatening and frightening blacks. They demanded that blacks either vote Democrat or not vote at all. They met defiance with beatings, whippings and sometimes murder. They burned blacks’ houses down and drove black farmers off their land and they extended their hostilities to southern whites who opposed them and the so-called ‘carpetbaggers’, white infiltrators from the North.

The Klan loved weird titles, Grand Dragon and such, and a former Confederate cavalry general, Nathan Bedford Forrest, is said to have been for a time the Klan’s leader as Grand Imperial Wizard. In 1868 he said that the Klan had well over 500,000 members in the southern states, but that he was not involved.

The original Klan faded away in the 1870s after the federal government had taken action and many members had been arrested and punished, but it had helped to make the South a Democrat political stronghold. It was refounded in 1915, inspired by the film The Birth of a Nation by the pioneering Hollywood director D.W. Griffith, which shone an admiring light on the original Klan. It has existed with very slowly declining influence ever since.

– See more at: http://www.historytoday.com/richard-cavendish/ku-klux-klan-founded#sthash.5z5lYm1S.dpuf